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Uma luz no fim do túnel

Autor: Gabriel Rodriguez Brito
gabrielrodriguezbrito@gmail.com


Minha formação inicial é pedagogia. Durante alguns anos tive o privilégio de lecionar em escolas da periferia de uma cidade da grande São Paulo. Mesmo quando estive em escolas menos afastadas do centro, me deparei com a mesma triste realidade, crianças no 3º, 4º, 5º ano ainda analfabetas ou analfabetas funcionais. Sempre mais da metade dos alunos das turmas para as quais lecionei não sabia fazer uso adequado da leitura e da escrita.

Em todas as escolas havia programas suplementares/remediativos que aconteciam em pequenos grupos fora da sala de aula, onde deveriam participar os alunos que apresentassem grande discrepância entre aptidão e desempenho, isto é, fariam parte destes grupos os alunos cujo desempenho em leitura e escrita estava muito abaixo do esperado para idade e escolaridade. Em todas as escolas a prioridade era atender os alunos do 5º ano, estes ficariam se necessário, até o fim do ano letivo em intervenção, já os alunos do 3º e 4º ano, assim que conseguissem avançar o mínimo possível em suas hipóteses de leitura já não recebiam mais tais aulas suplementares.

Neste contexto conheci a abordagem de Resposta à Intervenção, do inglês Response to Intervention (RTI). Aplicar tal abordagem foi o tema do meu trabalho de conclusão do curso de psicopedagogia e possibilitou que eu acreditasse mais firmemente que todos aprendem!

Certa vez ouvi de um palestrante formado em jornalismo, que a diferença entre um bom jornalista e um bom professor é que o bom jornalista encontra aquilo que está de errado em uma personalidade ou instituição, encontrar a escuridão é o que venderá os tabloides. Já o bom pedagogo é aquele que quando todos dizem que determinado aluno não tem mais jeito ele é o que diz que tem jeito, sim. E, então, encontra luz dentro do aprendiz. Ter conhecido o modelo RTI foi para mim uma luz no fim do túnel, uma ferramenta que me ajudou a encontrar a brilhio que de fato eu procurava, aquela luz dos talentos que eu sabia que estava escondida dentro dos meus alunos.

O RTI me ajudou a ver acender de forma mais clara as habilidades da leitura, escrita e aritmética em meus alunos. Brilho esse essencial para trazer outras áreas do saber à tona. A seguir detalho brevemente no que consiste a abordagem do RTI.

O que é o RTI

O Modelo RTI combina um sistema de identificação precoce dos alunos que estão abaixo da média esperada em habilidades acadêmicas quando comparados aos seus pares de mesma idade e escolaridade, e são oferecidos progressivos níveis de monitoramento e apoio ao estudante, tendo como premissa básica a instrução de alta qualidade, baseada em evidências científicas. Esta abordagem tem se mostrado bastante eficaz no diagnóstico das Dificuldades de Aprendizagem (DA) e dos Transtornos de Aprendizagem (TA), bem como contribuído para a melhora do ensino em geral. Originalmente o modelo foi pensado para ser constituído por 3 camadas:

Gabriel_Brito

A Camada 1 visa a uma intervenção de caráter instrucional, preventivo, oferecida pelo professor a todos os alunos, por meio de instruções de alta qualidade que tenham base em evidências científicas, no mínimo por 15 minutos ao dia, três vezes por semana. São feitas avaliações do desempenho dos alunos, permitindo ao professor revisar estratégias e elaborar planos de ensino.

A Camada 2 equivale a uma instrução suplementar, voltada à 20% dos alunos cujo desempenho, embora tenham recebido intervenção na Camada 1, continua abaixo da média dos seus pares de mesma idade. O progresso dos alunos continua sendo monitorado e os pais são incluídos no planejamento e acompanhamento do processo.

A Camada 3 caracteriza-se por intervenções individuais, remediativas e intensivas feitas por um especialista. Nessa camada, pode-se avaliar a necessidade de encaminhamento para educação especial ou outras intervenções específicas. Se aplicado de forma correta, com estratégias com base em evidências, apenas 5% da turma chegará a necessitar de intervenções da camada 3. O RTI preconiza que, quando ensino de qualidade e intervenção às dificuldades são fornecidas precocemente, isto é, antes de haver uma discrepância grande entre aptidão e desempenho, estudantes sem TA ou sem prejuízos intelectuais obtém progressos satisfatório.

Experiência do RTI num 5º ano de uma escola pública da periferia

O fato de que, no Brasil, ainda não exista uma política nacional de identificação e acompanhamento de crianças com DA/TA, torna ainda mais complexa a prática da intervenção precoce. Na época da pesquisa, em 2014, eu lecionava numa turma do 5º ano, dessa forma, buscou-se verificar se a implementação da camada 1 do modelo de RTI em crianças em séries mais avançadas poderia promover a melhora do rendimento geral da turma. O objetivo do estudo era diminuir a incidência das DAs e apontar com mais precisão os alunos que realmente necessitariam de intervenções específicas fora da sala de aula.

As estratégias com base em evidências científicas foram sistematizadas de forma hierarquizada, do conhecimento mais simples ao mais complexo (Saiba mais sobre as estratégias clicando aqui). O que nos interessa no momento é salientar que, as evidências de estudos nacionais e internacionais indicam que, 80% dos problemas de aprendizagem são resolvidos com uma intervenção da camada 1 do RTI, ou seja, pelo professor na própria sala de aula de forma coletiva.

A sistematização de forma hierárquica dos conteúdos é algo essencial. O professor não deve passar para um conteúdo mais complexo sem antes garantir que o aluno tenha se apropriado do conteúdo mais simples! Reforçamos assim a importância do monitoramento do desempenho da classe. Com base nos princípios do RTI, podemos deduzir que se mais de 20% da turma está falhando em determinada tarefa, o problema está relacionado à instrução que eu como professor estou utilizando. Portanto, a estratégia e os recursos de ensino precisam ser revistos e alterados, ainda não é momento de mudar de conteúdo.

O principal pressuposto da RTI de que, quando ensino de qualidade e intervenção às dificuldades são fornecidas precocemente, estudantes sem TA ou sem prejuízos intelectuais obtém progressos satisfatórios, se mostrou verdadeiro nesta experiência, uma vez que, ao final do ano, 80% dos alunos tiveram avanços significativos, comprovados através de testes padronizados, tanto em leitura e escrita quanto em aritmética. Embora não tenham sido aplicadas as camada 2 e 3, foi possível atender e encaminhar os 20% da turma, que não responderam adequadamente as intervenções, de fato, 2 dos alunos encaminhados para avaliação especializada tinham comprometimentos cognitivos mais sérios.

Este relato não pretende esgotar o tema do RTI, mas aguçar a curiosidade do leitor a pesquisar e inteirar-se melhor sobre o tema. O autor está à disposição para mais detalhes sobre o assunto aqui tratado.

Se você quiser expandir este tópico, você pode fazê-lo no curso C.A.R.T.A 1° edição: Dislexia / Curso Online Avançado em Reabilitação dos Transtornos de Aprendizagem

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